domingo, 3 de dezembro de 2017

A vida vai torta

"A vida vai torta jamais se endireita, o azar persegue e esconde-se à espreita..."

O Zé Pedro morreu e nós passámos todo o dia enfiados no Hospital nas consultas e exames de seguimento da patologia do nosso filho, último dia do mês de Novembro, o mês em que fiz 41 anos, fiz uma viagem espectacular, desentendi-me com uma das pessoas de quem mais gosto e que mais importante é para mim, trabalhei muito, mostrei o meu valor e o meu futuro profissional foi re-definido. 
Novembro chegou ao fim e sinto-me vazia, cansada, assoberbada, sufocada e a precisar de ser somente quem sou, assumir-me com toda a bagagem que trago, com todas as coisas boas e menos boas que tenho e que a vida me trouxe.

"A vida vai torta jamais se endireita, o azar persegue e esconde-se à espreita..." 

O Zé Pedro morreu e eu coloquei os Xutos a tocar, ouvi esta música e esta letra fez o clique, esta letra resumiu o que sinto há 620 dias. Dói muito, vai doer durante muito tempo, vai doer para sempre. Mas também acredito num propósito maior, dizem que os filhos são os nossos mestres.

Não sei o futuro, ninguém sabe, só comecei a sofrer mais cedo do que esperava. Ninguém está preparado para reconhecer e viver diariamente com a fragilidade da vida bem em frente dos olhos, no coração, principalmente se ainda não se tem maturidade para a gerir.

Para mim a maturidade chegou à bruta e com toda a sua brutalidade me fez dar um passo maior do que alguma vez imaginei conseguir dar (chama-se desapego), um diagnóstico, uma doença, na parte mais frágil de uma Mãe, num filho.

Dizem que a vida só nos traz o que conseguimos aguentar. Talvez assim seja... Não me sabia tão forte ou especial assim... Mas não questiono (ou melhor, vou deixar de questionar), aceito (vou aceitar). 

Não sei o futuro, ninguém sabe, só sei que encho o coração de amor, procuro a luz, a fé, a esperança e a força para fazer o caminho, da melhor forma, em paz e de sorriso no rosto.

Mas se querem saber, mesmo a doer (a quem não dói o músculo do sentir?), mesmo com medo (quem não tem medos?), está tudo bem! A sério está mesmo tudo bem, somos felizes, amamos, vivemos, ralhamos, zangamo-nos, corremos atrás do tempo, apressamos a vida, brincamos, descansamos, fazemos co-slepping, acordamos mal dispostos, partilhamos o pequeno-almoço na cama, nuns dias comemos sopa, nos outros não, tudo com normalidade. Somos uma família normal, fazemos o melhor que podemos e sabemos, como toda a gente, porque não sabemos o futuro, ninguém sabe. 

"Enquanto esperava no fundo da rua
Pensava em ti e em que sorte era a tua
Quero-te tanto...(quero-te tanto)
Quero-te tanto...(quero-te tanto)"

* Foto daqui

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